Emissões evitadas (Escopo 4): da inovação conceitual à aplicação prática na governança climática

A contabilização de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) consolidou-se, ao longo das últimas décadas, a partir da classificação em Escopos 1, 2 e 3, conforme estabelecido pelos principais referenciais internacionais de reporte. Esse enquadramento permanece central para a integridade dos inventários corporativos e públicos.

No entanto, à medida que a agenda climática avança para além da mensuração estática e passa a demandar avaliação de impacto sistêmico, ganha relevância o debate sobre as chamadas emissões evitadas, frequentemente associadas ao que vem sendo denominado Escopo 4.

O que são emissões evitadas e por que o debate é necessário

As emissões evitadas dizem respeito às reduções de GEE que ocorrem fora dos limites operacionais diretos de uma organização ou território, mas que são viabilizadas pelo uso de seus produtos, serviços, políticas ou programas. Trata-se, portanto, de um conceito orientado ao impacto, e não apenas à responsabilidade direta.

Embora o Escopo 4 não seja oficialmente reconhecido pelos padrões consolidados de reporte, o tema vem sendo discutido por instituições como o World Resources Institute, no contexto do GHG Protocol, bem como por iniciativas empresariais e coalizões voltadas à agenda de net zero. O ponto central do debate não é substituir os escopos tradicionais, mas complementá-los, com salvaguardas metodológicas claras.

A experiência da Mowa: Escopo 4 aplicado desde 2021

No âmbito da Mowa Carbon Neutral, esse debate não é apenas teórico. Em 2021, o conceito de emissões evitadas foi aplicado de forma pioneira no Inventário de Emissões de GEE da Cidade do Rio de Janeiro, quando o atual Diretor Executivo da Mowa exercia a função de Gerente de Mudanças Climáticas do município.

Naquela experiência, o Escopo 4 foi adotado como camada analítica complementar, com três princípios fundamentais:

  • Separação rigorosa entre emissões reportadas nos Escopos 1, 2 e 3 e aquelas classificadas como evitadas;
  • Transparência metodológica, com definição explícita de cenários de referência (baseline) e hipóteses adotadas;
  • Uso orientado à decisão, apoiando a avaliação de políticas públicas, programas estruturantes e soluções de mitigação com efeito sistêmico.

Essa abordagem permitiu evidenciar, por exemplo, os impactos positivos de programas de eficiência energética, mobilidade sustentável e gestão de resíduos — sem inflar artificialmente os resultados do inventário ou comprometer sua comparabilidade internacional.

Escopo 4 como instrumento de governança — não de greenwashing

A posição da Mowa é clara: emissões evitadas não devem ser utilizadas para compensar emissões diretas, nem para substituir metas de redução nos escopos tradicionais. Seu valor está em outro plano. Quando bem aplicadas, as métricas associadas ao Escopo 4:

  • qualificam a tomada de decisão estratégica;
  • orientam a priorização de investimentos climáticos;
  • fortalecem a avaliação de impacto de políticas públicas e projetos estruturantes;
  • contribuem para a estruturação de mecanismos de financiamento climático, inclusive relacionados à geração futura de créditos de carbono, quando elegível.

Por outro lado, o uso inadequado do conceito — sem critérios, sem baseline robusto ou com dupla contagem — representa um risco real à credibilidade da agenda climática. É justamente por isso que a Mowa defende sua aplicação com parcimônia, rigor técnico e finalidade explícita.

O debate sobre o Escopo 4 reflete a maturidade crescente da agenda climática: não basta medir emissões, é preciso avaliar transformação. A experiência acumulada pela Mowa demonstra que é possível incorporar o conceito de emissões evitadas de forma responsável, técnica e alinhada às melhores práticas internacionais.

Mais do que uma tendência conceitual, o Escopo 4 — quando corretamente delimitado — pode se tornar um instrumento estratégico de governança climática, conectando mensuração, política pública, investimento e impacto real.