O setor elétrico brasileiro está a entrar numa fase em que flexibilidade e capacidade firme passam a ser tão relevantes quanto a expansão de energia (MWh). A rápida expansão da solar (centralizada e distribuída) e da eólica aumenta a variabilidade da oferta, enquanto eventos climáticos extremos e constrangimentos de rede tornam a operação mais complexa. Nesse cenário, sistemas de armazenamento por baterias (BESS/SAE) deixam de ser “inovação” e passam a ser infraestrutura sistémica: armazenam energia quando há excedente e entregam potência quando o sistema precisa.

1) O que está a ser desenhado no Brasil: leilões de “potência” com baterias

O Governo Federal vem a estruturar um Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência específico para armazenamento, com diretrizes submetidas à Consulta Pública do MME (CP nº 176/2024), denominada “LRCAP Armazenamento”. O objetivo explícito é contratar potência (MW) proveniente de novos sistemas de armazenamento, reforçando a segurança do fornecimento no SIN.

Esse desenho é importante porque:

  • não compra apenas energia (MWh gerados ao longo do ano), mas capacidade disponível para atender picos e contingências;
  • reconhece que baterias entregam valor sistémico por meio de serviços de flexibilidade e confiabilidade.

Em novembro de 2025, o MME publicou portaria estabelecendo diretrizes para o leilão de armazenamento (LRCAP Armazenamento), reforçando o foco em continuidade do fornecimento e atendimento da necessidade de potência do SIN via SAEs.

2) Por que baterias agora: solar, curtailment e operação mais “apertada”

O ONS tem apontado armazenamento como prioridade operacional e de planeamento, destacando a necessidade de regras e requisitos para conexão, integração e operação desses recursos no SIN.
Ao mesmo tempo, o aumento de restrições operativas (incluindo cortes de geração renovável por segurança) expõe o valor de soluções que absorvem excedentes e aliviam gargalos em momentos críticos.

Em termos práticos, baterias ajudam a:

  • reduzir despacho térmico de curto prazo (quando a rede precisa de potência rápida);
  • reduzir desperdício de renováveis (capturando excedentes);
  • estabilizar a frequência e apoiar a rede em eventos rápidos.

3) Regulação: remover barreiras e definir o papel do armazenamento

No front regulatório, a ANEEL vem a conduzir um ciclo de consultas e análises para caracterizar o armazenamento e endereçar barreiras. Em 2025, a agência publicou análise das contribuições recebidas na Consulta Pública 39/2023 e sinalizou a continuidade do processo regulatório, incluindo uma segunda fase focada na remoção de barreiras à implantação.
Ou seja: além do leilão, o país caminha para clarificar como o armazenamento se enquadra (como ativo de rede, geração, carga, híbrido), quais serviços pode prestar e como será remunerado.

4) O que muda para o mercado de carbono: emissões evitadas, mas com rigor metodológico

Para a agenda climática, o ponto central é que baterias (especialmente quando associadas a renováveis) podem:

  • reduzir geração fóssil marginal em horários de pico;
  • diminuir acionamentos de térmicas por confiabilidade;
  • ampliar participação efetiva de renováveis sem aumentar risco sistémico.

No entanto, quantificar “emissões evitadas” (ou redução de emissões) requer método. Em termos de boas práticas, a estimativa deve usar fatores de emissão coerentes com o propósito:

  • inventários corporativos / comunicação institucional: frequentemente utiliza-se fator médio do sistema;
  • análise de impacto marginal / projetos de mitigação e potenciais créditos: tende-se a preferir fatores marginais (ex.: margem de operação / margem combinada) e regras de linha de base adequadas.

A grande oportunidade está em criar projetos com MRV robusto (monitoramento, relato e verificação), evitando dupla contagem e assegurando adicionalidade regulatória e ambiental — especialmente num ambiente em que leilões e regulação podem, por si só, tornar certas instalações “obrigatórias” ou “já esperadas”.

5) Implicações económicas: flexibilidade como ativo e novos modelos de negócio

Ao contratar potência e flexibilidade, o Brasil abre espaço para modelos que combinam:

  • receitas por capacidade (contratual);
  • receitas por serviços ancilares (quando regulamentado);
  • otimização energética (arbitragem temporal onde aplicável);
  • híbridos (solar + armazenamento) para firmar entrega.

Além disso, há evidências crescentes de que aumentar flexibilidade pode reduzir custos sistémicos — tema que vem sendo explorado em estudos e análises técnicas no ecossistema energético brasileiro.

6) Onde a MOWA enxerga valor: integridade climática + desenho de política

Para além do hardware, o que decide o sucesso é a governança: regras de conexão, remuneração, contratos, critérios de desempenho e métricas de impacto. É aqui que políticas públicas (como leilões de capacidade) e instrumentos climáticos (inventários, fatores de emissão marginais, metas) precisam conversar.

A contribuição da MOWA, neste contexto, é integrar:

  • contabilidade de emissões (incluindo abordagem marginal quando aplicável);
  • avaliação de adicionalidade e integridade;
  • desenho de MRV para resultados climáticos;
  • conexão com metas (NDC, planos locais, portfólios corporativos) e com finanças sustentáveis.

O movimento do Brasil rumo à contratação de armazenamento via leilões de potência marca uma mudança de paradigma: o sistema elétrico passa a remunerar não só “energia gerada”, mas capacidade, flexibilidade e segurança. A consequência é uma transição energética mais consistente — com menor dependência de térmicas em momentos críticos e maior aproveitamento de renováveis — desde que a regulação e os mecanismos de mensuração climática sejam desenhados com rigor.