Ontem foi a final da Copa do Mundo, mas quanto desse dinheiro volta para o planeta?

Um levantamento do @icl.noticias mostra que a Copa de 2026 é o maior evento de apostas da história: estima-se que US$ 50 bilhões tenham sido despejados nas plataformas em poucas semanas — dinheiro que saiu da mesa de milhões de famílias e foi parar, majoritariamente, em plataformas sediadas fora do país. É um volume de capital mobilizado em tempo recorde, movido por promessa de sorte, sem gerar emprego, sem gerar produto, sem deixar nada além de dívida e, para uma parcela crescente da população, vício.

Enquanto isso, o Brasil senta em cima de um outro tipo de fortuna — essa, real, mensurável e renovável — e simplesmente deixa ela evaporar. Literalmente: em forma de metano, de carbono não sequestrado, de floresta que não se recupera porque ninguém paga por ela ficar em pé. Vale colocar lado a lado o que se apostou em algumas semanas de futebol com o que o país tem potencial de gerar, todo ano, se decidir estruturar esse ativo com a mesma pressa que estrutura uma casa de apostas.

Floresta: o maior ativo parado do planeta

O Brasil concentra a maior floresta tropical do mundo — 488 milhões de hectares, que hoje já capturam cerca de 600 milhões de toneladas de CO₂. Mas o dado mais impressionante não é o que já existe: é o que poderia existir. O país tem 47 milhões de hectares de área degradada, sobretudo pastagem improdutiva, com potencial de sequestrar até 700 milhões de toneladas de CO₂ por ano se fossem restaurados. A preço de mercado, isso equivale a um mercado potencial de US$ 26 bilhões por ano — mais que a metade do que se apostou na Copa inteira, só que gerado ano após ano, indefinidamente, e não queimado em poucas semanas.

Biogás e biometano: o dejeto que vira energia e vira receita

Todo dejeto de gado, suíno e frango que se decompõe sem controle libera metano — um gás com potencial de aquecimento até 80 vezes maior que o CO₂ no curto prazo. O Brasil, com a quarta maior produção de suínos do mundo e um dos maiores rebanhos bovinos do planeta, tem nesse dejeto uma mina a céu aberto que a maior parte do agronegócio ainda trata como problema, não como ativo.

O setor de biogás e biometano pode mobilizar R$ 348 bilhões em investimentos e criar cerca de 798 mil empregos no país, segundo estimativas do setor — um número que já reflete a força da Lei do Combustível do Futuro, que passou a exigir mistura de gás renovável ao fóssil a partir de 2026, e de um pipeline de R$ 8,5 bilhões só na cadeia de biogás de aterro.

De novo, não é abstrato: no oeste do Paraná, dois criadores de suínos dividiram um único biodigestor entre duas propriedades vizinhas e hoje têm energia própria suficiente para dar independência energética a ambas as fazendas — com o mesmo sistema capaz de gerar, em paralelo, crédito de carbono certificado pela redução de metano. É o tipo de modelo que pode ser replicado em milhares de propriedades médias e pequenas do país, desde que alguém estruture o projeto, meça as emissões evitadas e conecte o produtor ao comprador certo.

Energia solar e eólica: o país gera mais do que a própria rede aceita

Se em biogás o gargalo é falta de estruturação, em energia solar e eólica o problema é quase o oposto: o Brasil já investiu, já construiu os parques, e agora joga fora parte do que gera. Em 2025, o sistema elétrico brasileiro descartou 20,6% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido produzida — o chamado curtailment, quando a rede não tem capacidade de escoamento suficiente ou a demanda local não absorve tudo o que está sendo gerado naquele momento. O prejuízo chegou a R$ 6,5 bilhões só naquele ano, concentrado sobretudo no Nordeste, onde a geração renovável cresceu mais rápido do que a infraestrutura de transmissão conseguiu acompanhar. Empresas como Auren, Engie Brasil e Serena já contabilizam impacto direto no Ebitda por causa desses cortes — energia que foi gerada, mas nunca chegou a ser vendida, porque a rede simplesmente não teve para onde escoá-la.

E, para completar, o momento em que o setor mais precisaria de fôlego é justamente aquele em que a carga tributária sobe. Com a Reforma Tributária, em implementação a partir de 2026, equipamentos solares — antes isentos de ICMS em diversos estados — passam a ter alíquota efetiva próxima de 9%, um salto de mais de 160% sobre os atuais 3,65% de PIS/Cofins. No mesmo pacote de mudanças, painéis solares e componentes importados podem chegar a uma tributação de até 35% até julho de 2026, com o fim da alíquota zero que vigorava desde 2023. Para a energia eólica, estimativas do setor apontam que só a nova CBS pode reduzir a competitividade da fonte em cerca de R$ 10,87 por MWh.

O resultado é um setor pressionado dos dois lados ao mesmo tempo: perde na ponta da geração, porque a rede não aceita tudo o que ele produz, e perde na ponta do custo, porque o imposto sobe justamente quando o produto mais sofre para ser escoado. É talvez a versão mais gritante do argumento deste texto — o Brasil não carece de ativo nem de vontade de gerar energia limpa; carece de infraestrutura e de política tributária que acompanhem a transição energética em vez de freá-la.

Compostagem: o lixo que ainda não virou fertilizante

Aqui mora talvez o desperdício mais silencioso de todos. O Brasil gera cerca de 82 milhões de toneladas de resíduo sólido urbano por ano — e composta menos de 0,5% disso. Para efeito de comparação, países europeus chegam a compostar até 40% do próprio resíduo orgânico. Somando resíduo urbano, agrícola e agroindustrial, o país produz perto de 1 bilhão de toneladas de resíduo orgânico por ano; se metade fosse direcionada à compostagem, seriam 224 milhões de toneladas de composto — fertilizante orgânico que hoje representa menos de 10% do mercado brasileiro de adubos, girando globalmente rumo a um mercado de quase US$ 16 bilhões até 2029.

O que sobra desse resíduo não tratado vai para aterro, onde vira metano — o mesmo gás citado lá na seção de biogás, só que aqui gerado pela cidade, não pela fazenda. Não é coincidência que os primeiros grandes leilões de crédito de carbono do país, ainda nos anos 2000, tenham nascido exatamente do controle de metano em aterros como o Bandeirantes e o São João, em São Paulo — mais de 800 mil créditos vendidos, prova de que o mercado para esse tipo de ativo já existe e paga por ele há duas décadas. Falta é escala, e falta é gestão pública e privada tratando resíduo orgânico como matéria-prima, não como problema a ser enterrado e esquecido.

O que esses casos têm em comum

Floresta, biogás, energia solar/eólica e compostagem não são quatro problemas separados — são quatro formas do mesmo desperdício aparecendo em lugares diferentes. Nos casos da floresta, do biogás e da compostagem, o que falta é sobretudo estrutura: quem faça o diagnóstico, escolha a metodologia certa, valide com um padrão internacional e conecte quem gera o ativo a quem precisa comprá-lo — e a Mowa Carbon está justamente cumprindo esse papel. Em nenhum deles falta demanda — existe indústria pesada, exportadora e com meta de net zero disposta a pagar por crédito de qualidade.

Já no caso da energia solar e eólica, o ativo já existe, já foi construído e já está sendo gerado — o que falta é o Estado destravar o escoamento na rede e parar de tributar o setor como se ele ainda precisasse provar seu valor. É o lembrete de que estruturar o projeto resolve metade do problema; a outra metade depende de decisão pública — a mesma “coragem e decisão política” que falta para enfrentar quem lucra com o vício das apostas.

Por que o crédito de carbono é a peça que falta

Em nenhum dos quatro casos o problema é tecnologia. Biodigestor, sistema de compostagem, muda nativa e painel solar já existem, são baratos, testados e replicáveis há anos. O que falta, em cada um deles, é uma coisa bem específica: uma fonte de receita que compense fazer a coisa certa quando o mercado tradicional simplesmente não paga por isso.

  • Floresta em pé não compete, em preço de terra, com pasto ou soja — a menos que exista uma receita adicional que remunere o proprietário por não desmatar. O crédito de carbono é exatamente essa receita: transforma o custo de oportunidade de “não usar a terra do jeito mais lucrativo no curto prazo” em fluxo de caixa real, ano após ano.
  • Biodigestor rural tem investimento inicial alto, e a venda de energia sozinha, muitas vezes, não fecha a conta em prazo atraente para o pequeno e médio produtor. O crédito de carbono é a segunda perna de receita que reduz o payback e viabiliza o projeto onde só a energia não bastaria.
  • Compostagem compete com aterro, que hoje ainda é mais barato e mais simples para o gestor público ou privado — mesmo sendo pior para o planeta. Sem uma receita extra, poucos trocam um pelo outro. O crédito de carbono é o que muda essa conta, ao colocar um preço no metano que deixa de ser emitido.
  • Energia solar e eólica são a exceção que confirma a regra: aqui tecnologia e investimento já aconteceram, mas falta o mesmo tipo de mecanismo em outra ponta — um preço de carbono real e consistente, via SBCE e CBAM, que sinalize que vale a pena investir em rede e armazenamento para não desperdiçar o que já foi gerado. Sem esse sinal de preço, o país segue tratando energia limpa como custo a ser tolerado, não como ativo a ser protegido.

Em resumo: crédito de carbono não é “ajuda extra” nem marketing verde. É o instrumento que corrige uma falha de mercado antiga — o fato de que o carbono lançado na atmosfera nunca apareceu na conta de ninguém. Cada um desses quatro setores só destrava escala no momento em que essa conta finalmente aparece: precificada, mensurável e vendável.

É essa a diferença entre apostar e investir. A aposta promete retorno rápido e entrega, para a imensa maioria, prejuízo — o dinheiro sai do país, sai da mesa da família, e não deixa nada além de dívida e, para muitos, vício. O investimento em carbono é o oposto: começa devagar, exige metodologia e verificação, mas gera receita recorrente, fica no território, cria emprego local e ainda resolve um problema ambiental real. Um multiplica risco social. O outro multiplica desenvolvimento.

Bora apostar no mercado de carbono como motor de desenvolvimento.

Foto destacada: REUTERS/Hannah Mckay